Quanto custa um beat: grátis, lease, exclusivo e sob medida

Todo artista que me chama pela primeira vez faz a mesma pergunta antes de qualquer outra: quanto custa um beat? A resposta honesta é que o preço depende menos do beat e mais do que você vai poder fazer com ele depois. Em 15 anos produzindo, trabalhando com gente como Projota, Froid e Dalsin, eu vi muito artista pagar pouco num instrumental e só descobrir o preço de verdade quando a música começou a andar.
Então vou abrir a conta aqui, sem rodeio: os quatro jeitos de conseguir um beat, quanto custa cada um e o que vem junto.
Beat grátis: o preço é zero, o risco não
No YouTube tem milhares de beats com "free" no título. Alguns produtores liberam de verdade pra você gravar e divulgar. O problema mora nas letras miúdas: a maioria libera só pra uso sem fins lucrativos, o famoso "free for non-profit". Subiu no Spotify, monetizou o clipe ou cantou em show pago, você já saiu da licença.
E tem o detalhe que quase ninguém lê. Beat grátis quase sempre vem com tag de voz, aquela assinatura do produtor no meio da faixa, e o mesmo instrumental está na mão de centenas de outros artistas. A sua música já nasce parecida com a de muita gente.
Serve pra treinar, testar flow e gravar demo. Pra lançamento, não serve.
Lease: você aluga o beat
Lease é uma licença não exclusiva. Você paga pra usar o beat dentro de alguns limites, e o produtor continua vendendo o mesmo beat pra outros artistas. É o modelo mais comum nas lojas gringas, como a BeatStars.
Lá fora, um lease costuma sair entre 30 e 250 dólares, conforme o produtor e o pacote. Os pacotes mudam principalmente em três pontos:
- Arquivo: o mais barato vem só em MP3; os de cima trazem WAV e, às vezes, as pistas separadas.
- Limite de uso: teto de streams, de vendas ou de visualizações. Pacote básico às vezes para em poucos milhares de plays.
- Prazo: muito contrato de lease vence depois de um tempo e precisa ser renovado.
Parece barato, e às vezes é mesmo. Só que a conta muda se a música andar: passou do teto, você precisa comprar uma licença maior. E se outra pessoa comprar o exclusivo daquele beat, ele sai da loja, mas continua existindo em todas as músicas que já saíram com ele, inclusive a sua.
Beat exclusivo: o beat vira seu
No exclusivo, você compra e o produtor para de vender. O beat sai da loja e ninguém mais lança música com ele dali pra frente. Normalmente vem WAV, MP3 e as pistas separadas, que é o que o técnico precisa pra mixar do jeito certo.
Nas plataformas internacionais, exclusivo custa de algumas centenas a alguns milhares de dólares. Aqui na minha loja os beats exclusivos ficam entre R$ 189 e R$ 219, e sempre tem uma seleção em promoção saindo mais barato.
Um ponto a favor do exclusivo que pouca gente comenta: é a licença que deixa você cadastrar a música no Content ID do YouTube sem confusão. Com beat alugado, outros artistas usam a mesma base, e aí qualquer reivindicação de direitos vira briga entre gente que pagou pela mesma coisa.
Antes de pagar, lê o contrato. Exclusivo não quer dizer que 100% dos direitos ficam com você: muito produtor, eu incluso, mantém uma parte dos direitos autorais da obra. No meu contrato de licença exclusiva está escrito quanto é e como funciona. É esse tipo de cláusula que você tem que procurar em qualquer loja.
Beat sob medida: produzido do zero pra sua letra
Quando nenhum beat pronto encaixa, o caminho é encomendar. Você manda referência, o clima que imagina e a letra, e o produtor cria em cima disso. Custa mais porque é trabalho feito só pra você desde a primeira nota e costuma ter ajuste até ficar redondo. Aqui o beat por encomenda sai por R$ 297,70.
O que muda o preço de um beat
Dois beats com o mesmo preço podem entregar coisas bem diferentes. Na hora de comparar, confere estes cinco pontos:
- Tipo de licença. Lease, exclusivo ou sob medida. É o que mais pesa no valor.
- Arquivos. MP3 serve pra ouvir. Pra lançar você quer WAV, e pra mixar bem, as pistas separadas.
- Tag de voz. Beat pago tem que chegar sem a assinatura do produtor no meio.
- Contrato por escrito. Sem contrato, você não tem como provar que pode usar o beat se alguém reclamar.
- Suporte. Se precisar de um ajuste depois da compra, o produtor responde ou some?
Quanto vale a pena gastar no começo
Se você está gravando pra aprender, beat grátis ou lease barato resolve. A partir do momento em que a música vai pro Spotify com a sua cara na capa e dinheiro seu na divulgação, o beat deixa de ser gasto e vira a base do lançamento. É aí que o exclusivo compensa: um pagamento só, sem teto de plays e sem ninguém lançando por cima da mesma base.
O erro que eu mais vejo é justamente o contrário. O artista investe em clipe, em capa e em impulsionamento, e a base é um beat alugado que já está em outras dez músicas. Antes de decidir, dá o play nos beats de trap, drill, boom bap e funk da loja e escolhe pela sua letra, não pelo preço mais baixo da tela.



